"Até breve, mãe", por Ieda Tinoco Boechat
Poesia
Verão chega esplendoroso...
Em Pedra Azul, paz reluz;
na Mata Atlântica, o gozo;
na família, até então, luz.
No alto da serra, aventura;
sombra da morte, no vale.
Escuridão sem candura
chega envolvendo-a qual xale.
Impiedosa enfermidade
torturou-me o coração,
sangrou-me a alma, sem piedade,
tornou lamento a oração.
Cessa, Senhor, eu pedia,
sua náusea, sua dor, sua agonia.
Em vão, parece, eu insistia;
socorro pra mãe, eu não via.
Mas ali com ela estava
Aquele que nunca dorme.
Sua graça lhe bastava.
Gratidão mais linda, enorme.
Receando muito sofrer,
morte rápida almejou.
Resignada, sem temer,
a seu Pastor se entregou.
Outono chega implacável
e, seco, arranca-a de mim.
Águas de um março incurável
inundam-me a face, enfim.
Despeça-se em paz, minha'alma.
Um até breve suporta.
Pra amada ovelha, sem calma,
o lar celeste abre a porta.